ENFOCANDO NA INFO QUANDO ACONTECE

“É impossível voltar atrás nas armas nucleares”

Hiroshima, símbolo de uma força de destruição extrema (foto de 8 de septembro de 1945).

Legenda: Hiroshima, símbolo de uma força de destruição extrema (foto de 8 de septembro de 1945). (Keystone)

Fazem exatamente 65 anos nesta sexta-feira (06) que bombas nucleares lançadas pelos Estados Unidos destruíram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Foi um desastre de dimensões sem precedentes.

Desde o fim da Guerra Fria a luta contra as armas nucleares avança, mas o especialista suíço em conflitos, Kurt R. Spillmann, constata que ainda existem grandes lacunas.


Kurt R. Spillmann participou do apoio ao Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares assinado em 1970, “um instrumento essencial” para permitir à comunidade internacional de lutar contra as armas nucleares.

Apesar desse tratado, de uma convenção ainda mais restritiva prevista para as armas nucleares e da iniciativa pela interdição das armas nucleares proposta pela Suíça, somente a vontade das potências nucleares pode instituir órgãos de controle dotados de um poder real para eliminar as armas nucleares.

Esse é o ponto de vista de Kurt R. Spillmann, especialista suíço e política de segurança análise de conflitos. Ele constata grandes lacunas na luta contra as armas nucleares.

Spillmann é historiador e fundador do Instituto de Política de Segurança na Escola Politécnica Federal de Zurique (EPFZ). Ele dirigiu esse instituto até 2002.


swissinfo.ch: Sessenta e cinco anos depois de Hiroshima e Nagasaki, os problemas mundiais são o aquecimento climático, o terrorismo internacional, a pobreza, os fluxos migratórios, os conflitos culturais e religiosos, a crise econômica etc. Que espaço tem a questão das armas nucleares?

Kurt R. Spillmann: No final da Guerra Fria, essa questão perdeu um pouco do interesse público. Mas existem a exceção de três casos atuais: Coréia do Norte, o Irã e Israel. Mas, na realidade, o tema continua a ter uma grande importância.


swissinfo.ch: Pode-se atribuir ao Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares, assinado em 1970, o fato que depois de Hiroshima e Nagasaki e a corrida aos armamentos nucleares durante a guerra fria, nunca mais foram utilizadas armas nucleares nos confltos?

K.R.S.: Eu não faria uma ligação tão direta. O Tratado de Não- Proliferação é um instrumento essencial para frear as aspirações de vários países em desenvolvimento que querem se tornar potências nucleares.

Mas os exemplos da Índia, do Paquistão, da África do Sul, do Brasil e de Israel mostram que o tratado não impediu certos Estados de possuir armas nucleares ou estar dispostos a obtê-las.

No entanto, o tratado resta um instrumento importante que permite às potências nucleares estabelecidas de fazer pressão contra o desenvolvimento desse tipo de armas.


Kurt R.Spillmann: órgãos de controle serão eficazes, se as grandes potências quiserem. Kurt R.Spillmann: órgãos de controle serão eficazes, se as grandes potências quiserem. (RDB)

swissinfo.ch: Será que uma convenção sobre as armas nucleares pode conter cláusulas concretas que eliminariam totalmente as armas nucleares?

K.R.S.: Esse instrumento ainda não existe. O fato que todos os Estados concordem com uma convenção internacional e renunciem às armas nucleares parece uma utopia.

A eficácia de tal instrumento dependeria sempre da vontade dos Estados-membros de criar instâncias de controle dotadas de um poder real de supervisão na aplicação da convenção.

Como “cão de guarda” da ONU, só existe a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA, sediada em Viena) tem poder, pois assessora os membros do Conselho de Segurança da ONU.

A existência dessa instância é importante, mas não se pode esperar que o mundo seja livre das armas nucleares. Depois da descoberta da bomba atômica, não se pode voltar atrás. É extremamente difícil manter essa invenção sob controle.


swissinfo.ch: A Suíça lançou uma iniciativa por uma convenção internacional que proibiria as armas nucleares, como já estão proibidas as armas químicas e biológicas. Há chances de sucesso?

K.R.S: Por enquanto não. A iniciativa vai da mesma direção da convenção pela desnuclearização. Segundo o mesmo princípio, uma convenção funcionaria unicamente se os órgãos de controle tiverem poder. E os Estados ainda estão longe de ceder.


swissinfo.ch: Existe falta de vontade política das grandes potências nucleares?

K.R.S.: Absolutamente. É o mesmo princípio aplicado à ONU. É uma instância maravilhosa cujas regras permitem às diferentes nações de se organizarem. Graças a esse organismo muita violência foi evitada, os conflitos podem ser resolvidos através de negociações e não mais unicamente pela guerra.

Também é o caso em matéria de desarmamento nuclear. Só que o bom funcionamento depende da vontade e de acordo entre os membros para adotar medidas de controle e aplicá-las.

Como a história demonstra, manter a cooperação internacional e o respeito das regras estabelecidas tende a vacilar. George W. Bush, como outros presidentes norte-americanos antes dele, desprezaram a ONU.


swissinfo.ch: Com relação ao Irã, o que significaria para o Oriente Médio se Teerã declarasse dispor da bomba atômica?

K.R.S.: Para o Irã, país com uma cultura antiga e muito bem organizado, isso representaria um ganho de prestígio e poder.

Mas, em razão das armas nucleares existentes e dos instrumentos para controlá-las, tenho a convicção que o Irã não vai construir a bomba atômica.

Em contrapartida, existe o perigo que organizações islâmicas fundamentalistas obtenham a bomba nuclear. A Al Qaeda aspira abertamente a obtê-la. E aí o Paquistão representa um perigo muito maior do que o Irã.

Renat Künzi, swissinfo.ch
(Adaptação : Claudinê Gonçalves)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: