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China e Índia tentam apertar laços

 

 

Tom Wright

The Wall Street Journal, de Nova Déli

Em sua primeira visita à Índia em cinco anos, o premiê chinês, Wen Jiabao, anunciou US$ 16 bilhões em acordos entre empresas dos dois países, na esperança de que a China suplante os Estados Unidos e outros países ricos como principal impulsionador do crescimento indiano.

Falando a executivos indianos e chineses no primeiro evento aberto ao público de sua visita, Wen tentou desviar a atenção do problemático relacionamento entre os dois países e centrá-lo em algo mais positivo: o comércio crescente entre as duas economias asiáticas, que estão em rápido crescimento, com acordos em setores que vão de telecomunicação a commodities.

Em novembro, o presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou em viagem à Índia US$ 10 bilhões em acordos para empresas americanas exportarem ao país. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou em julho um acordo parecido de US$ 1,1 bilhão na área de defesa.

Embora os US$ 16 bilhões anunciados por Wen não sejam diretamente comparáveis aos acordos anunciados pelos EUA ou o Reino Unido, e houvesse alguma dúvida de que os acordos eram de fato novos, os comentários de Wen ressaltaram as ambições da China e o desejo de deixar sua marca no cenário econômico de seu vizinho.

“O século XXI é o Século Asiático”, disse Wen. “Também é o século em que a China e a Índia podem obter grandes conquistas.” Anand Sharma, ministro do Comércio e Indústria da Índia, adotou um tom parecido: “Temos áreas fortes, que são sinergéticas”.

Após o relacionamento difícil dos últimos anos, em que a China e a Índia entraram em conflito por questões como fronteiras, vistos e o apoio chinês ao Paquistão, Wen clamou por uma melhora nas relações com base no comércio.

“Alguns na imprensa já descreveram a China e a Índia como adversários. Não concordamos com essa visão”, disse Wen. “Há espaço suficiente no mundo para a China e a Índia. Nós dois temos a ganhar com a cooperação econômica e o comércio.”

Com o crescimento da economia indiana, tanto a China quanto os EUA esperam aumentar os laços com o país. A Índia, de sua parte, quer aproveitar o conhecimento e o poderio financeiro da China, já que se prepara para gastar até US$ 1 trilhão em projetos de desenvolvimento de infraestrutura nos próximos anos.

Wen descreveu uma visão de como os aspectos mais fortes das economias da Índia e da China se complementam: a China em engenharia e infraestrutura; a Índia em informática e farmacêuticos.

Mas Wen também reconheceu o gigantesco desequilíbrio comercial que afeta atualmente o relacionamento comercial entre a Índia e a China. O comércio bilateral cresceu 20 vezes desde 2000 e deve chegar a US$ 60 bilhões este ano, o que significa que a China provavelmente já é o maior parceiro comercial da Índia.

Mas a Índia é um fornecedor relativamente insignificante de produtos para a China, vendendo principalmente commodities como minério de ferro, enquanto importa caros equipamentos elétricos e de telecomunicação chineses. Nova Déli reclama habitualmente do dumping de produtos chineses em seus mercados e das barreiras da China para suas exportações mais valiosas, como farmacêuticos e equipamentos de telecomunicação.

Wen disse que a China está pronta para facilitar o acesso das exportações indianas, mas não especificou quais ações Pequim planeja adotar. Ele sugeriu à Índia começar logo negociações para um acordo de livre comércio e também a remoção de barreiras para o investimento, aludindo às políticas geralmente protecionistas da Índia, que impedem os bancos chineses de operar no país, ao mesmo tempo em que dez bancos indianos já têm agências na China.

As autoridades indianas dizem que as negociações para um acordo de livre comércio são improváveis, pelo menos até que Pequim elimine algumas de suas barreiras comerciais e tome medidas para solucionar tensões políticas entre os países por causa de suas fronteiras e outras questões.

Boa parte dos acordos anunciados ontem envolvem a exportação por empresas indianas de produtos como peixe congelado, minério de ferro e fios têxteis à China. Mas os acordos mais vultosos são para que bancos chineses financiem elétricas e telefônicas da Índia que vão comprar produtos da China.

Um dos acordos, segundo uma lista fornecida pela Confederação da Indústria Indiana, correspondia a um empréstimo de um valor não divulgado do Banco de Desenvolvimento da China para ajudar o conglomerado indiano Reliance ADA Group a comprar geradores da Shanghai Electric Group Co. As duas empresas já tinham assinado um acordo em outubro para a Reliance comprar US$ 10 bilhões em equipamentos.

A dependência indiana das exportações de commodities faz com que ela “se pareça com um país africano em comparação à China”, disse Brahma Chellaney, professor de estudos estratégicos do Centro de Pesquisa de Políticas em Nova Déli, numa referência ao investimento substancial da China em minas na África inteira.

Apesar do foco no comércio, várias questões políticas ainda pairam sob o relacionamento da Índia com a China e provavelmente serão discutidos hoje, quando Wen se reúne com o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh.

Um ano atrás, reacendeu uma disputa sobre a fronteira dos dois países no Himalaia, que ainda não foi solucionada. Em meados do ano, a Índia e a China suspenderam o intercâmbio militar de alto escalão depois que a China se recusou a emitir um visto para um general indiano visitar o país, e ainda não foi restabelecido.

O apoio chinês ao Paquistão, rival regional da Índia, também azedou as relações. Pequim está ajudando o Paquistão a construir reatores nucleares e já financiou estradas, ferrovias e portos no país.

Agora, o plano da China de construir uma barragem gigantesca no Rio Brahmaputra, obra iniciada em novembro, irritou a Índia, por onde passa parte da jusante do rio.

Para contrabalancear a China, a Índia começou a se aproximar militar e economicamente de outros países asiáticos que também temem a diplomacia mais agressiva exibida pelo país nos últimos meses, como as tensas rusgas territoriais com o Japão e o Vietnã.

A Índia aumentou a cooperação no setor de defesa com o Japão e a Coreia do Sul. Um acordo de livre comércio com a Coreia do Sul entrou em vigor este ano e Nova Déli também está tentando fechar um acordo parecido com o Japão.

 

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