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O que Peter Drucker disse e o que diria se ainda estivesse aqui


Uma obra se torna clássica quando, além de reconhecida, passa a ser estudada e interpretada por outros acadêmicos. No caso de Peter Ferdinand Drucker (1909-2005), austríaco de nascimento e guru dos gurus de administração, é compreensível que seja assim, não só pela importância dos seus escritos. Autor de 39 livros, que percorrem toda a gama de disciplinas sobre gestão empresarial e sociedade, Drucker nunca foi considerado um autor fácil, por ser denso naquilo que escreveu. No circuito de consultorias, há sempre quem diga que, assim como outros clássicos, ele é mais citado do que lido. É bem provável que boa parte da literatura ligeira que predomina entre as toneladas de livros de autoajuda para executivos contenha sempre – mesmo que mal compreendidas – algumas das ideias do papa da administração.

O fato de ser tão prolífico fez com que a 800CEOREAD, uma das mais importantes livrarias virtuais americana, especializada em literatura de negócios, quase pedisse desculpas por ter que escolher apenas uma obra para figurar em sua lista dos 100 melhores livros de negócios de todos os tempos. Não por acaso, elegeu a coletânea O Melhor de Peter Drucker (publicado no Brasil pela Nobel). Outro bom começo para mergulhar nos escritos do pensador austríaco surge agora pelas mãos de seus seguidores e docentes da The Peter F. Drucker and Masatoshi Ito Graduate School of Management, localizada em Claremont, nos Estados Unidos. O projeto nasceu do trabalho de 18 professores e transformou-se em curso, cujas aulas são semanais. A ideia dos autores é expandir o pensamento de seu mestre e atualizá-lo para as questões atuais. A essência do curso está no livro O Legado Vivo de Peter Drucker, da editora M. Books.

São 16 capítulos. A abordagem dos temas segue, em geral, a premissa de analisá-los sob uma dupla perspectiva: o que Drucker disse e o que diria sobre o assunto. O objetivo principal é fazer uma reflexão e não apenas assumir uma posição dogmática, por mais que se celebrem as ideias do mestre. Embora fosse economista, Drucker não era visto assim por alguns de seus pares, e nem por ele mesmo – sua visão sempre foi considerada mais humanista. Definiu-se assim ao participar, nos anos 30, de um seminário comandado por ninguém menos que John Maynard Keynes, na Universidade de Cambridge. Percebi que todos estavam interessados no comportamento de produtos, enquanto eu estava interessado no comportamento das pessoas. Ao lado de Joseph Schumpeter, amigo da família, e ambos integrantes da escola austríaca de economia, foi crítico contumaz das teorias de Keynes.

O livro não deixa de mostrar algumas contradições sobre a forma como o pensamento de Drucker evoluiu. Faz isso, situando historicamente o trabalho e a vida do mestre ao longo de todo o século XX, o que o fez testemunha dos principais acontecimentos de seu tempo. O capítulo 14 é o que aprofunda mais esse recorte. No final, seu autor (Richard Smith) faz um ensaio sobre qual seria a visão de Drucker sobre o colapso econômico de 2008 e 2009 nos Estados Unidos. Sobram críticas para a intervenção governamental e para a gestão focada no curto prazo das empresas. As tentativas de estilo keynesiano para lidar com o período de baixa econômica retardam os incentivos e a habilidade da economia em se recuperar por meio da inovação.

O livro mostra que Drucker conseguiu, de um lado, criar as bases para modelos empresariais eficientes. Mas frustrou-se ao tentar alcançar a harmonia completa entre satisfação do cliente e satisfação do funcionário. Ainda mais que não vê legitimidade na ação do Estado para mediar os interesses do mercado de trabalho e do mercado de consumo. Nesse sentido, o capítulo 8 aponta para a crença de Drucker na capacidade do terceiro setor em determinar a saúde, a qualidade e o desempenho da sociedade do século XXI.

A perspectiva de Drucker é de buscar um modelo empresarial eficaz, que seja socialmente aceitável. O livro de seus pupilos ajuda muito a entender o intrincado caminho percorrido por ele ao longo de mudanças profundas na política e na economia. Ao fim da leitura permanece o sabor de uma lição, que se aplica ao momento de crise, vivido especialmente nos Estados Unidos, mas que aflige a todos os países. O capítulo sobre governança corporativa mostra que, embora fosse crítico em relação ao excesso da carga regulatória sobre a produtividade e a criatividade das empresas, Drucker condenava com veemência a ganância dos executivos em colher ganhos maciços enquanto despediam milhares de seus funcionários. Em artigo de 1984, afirmou: É moral e socialmente imperdoável, e vamos pagar um preço alto por isso.

Fonte: Edson Pinto de Almeida/ Valor Econômico

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