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Crise na Líbia tem potencial de desestabilizar economia global

Robert Plummer

Repórter de economia da BBC

 

Manifestantes no alto de prédio incendiado: revolta

Na condição de 12º maior exportador de petróleo do mundo, a Líbia tem potencial de desestabilizar a economia global, se os protestos antigoverno que terminaram em violência interromperem o fornecimento do produto.

Desde que a suspensão das sanções impostas pela ONU e pelos EUA puseram fim ao status de pária do Estado líbio, investidores estrangeiros voltaram em bando ao país, ao longo dos últimos cinco anos – incluindo grandes petroleiras como a BP e a Exxon Mobil.

Mas a BP, por exemplo, está tão preocupada com a crise atual que está planejando retirar funcionários do país.

A empresa, que emprega 40 estrangeiros na Líbia, pretende retirar familiares de empregados e funcionários considerados não essenciais ao longo dos dois próximos dias.

A BP assinou um contrato com a Corporação de Investimento da Líbia, em 2007, para explorar duas áreas, uma envolvendo perfuração em águas profundas na Bacia de Sirte, no Mar Mediterrâneo, e outra no deserto no oeste do país.

Um porta-voz da BP disse à BBC que a perfuração na Bacia de Sirte continuaria, mas que equipes na região desértica de Ghadames foram retiradas e a atividade suspensa no local.

Apesar de as operações da BP ainda não terem levado à produção real de petróleo no local, a Bacia de Sirte é responsável pela maior parte da produção no país. O local contem cerca de 80% das reservas comprovadas de petróleo líbias, que chegam a 44 bilhões de barris – as maiores da África.

A Líbia também se beneficia por ter o tipo de petróleo cru leve que negociadores internacionais gostam, com pouco enxofre e uma gravidade específica que torna o produto ideal para transformação em gasolina e diesel.

E como apenas um quarto do vasto e pouco populoso território do país foi explorado, há muito para animar a indústria.

Crescimento para poucos

Mais da metade do PIB da Líbia vem dos setores de petróleo e gás natural, que respondem por mais de 95% das exportações do país, de acordo com o Banco Mundial.

Antes de a crise começar, a economia do país passava por um boom. O Fundo Monetário Internacional (FMI) acredita que a Líbia tenha crescido 10,6% ano passado, e que venha a crescer cerca de 6,2% em 2011.

Mas uma das principais razões por trás dos protestos é que essa enorme riqueza não está passando para as mãos da população.

De acordo com algumas estimativas, cerca de um terço dos líbios vive na pobreza. Não é incomum no país que as pessoas tenham dois empregos – devido aos baixos salários – apesar de cidadãos terem direito a sistema de saúde e outros benefícios de forma gratuita.

Desde que a Líbia retornou ao cenário dos negócios internacionais – após pagar indenização para as vítimas do atentado contra um avião que caiu em Lockerbie, em 1988 – as expectativas cresceram entre a população. Muitos pensavam que o fim do isolamento significaria aumento da qualidade de vida. Até agora, a espera foi em vão.

Mudança demográfica

Curiosamente, manifesteantes em Benghazi teriam retirado a bandeira líbia do topo do principal tribunal de justiça da cidade, substituindo-a pela bandeira da antiga monarquia – deposta em setembro de 1969 pelo golpe que levou Muamar Khadafi ao poder.

A maioria dos manifestantes não tem sequer memórias do rei Idris, primeiro e único monarca do país – já que ele foi destronado há mais de 40 anos, e mais da metade da população do país está abaixo dos 25.

Durante seu reinado, que começou em 1951 com a independência da Líbia, o rei manteve laços próximos com o Reino Unido e os EUA.

Quando ele estava no poder, Washington deu um enorme incentivo à economia líbia, ao construir a maior instalação da Força Aérea dos EUA no exterior – a Base Aérea Wheelus – perto da capital do país, Trípoli.

Mas a importância da Líbia como aliado dos EUA durante o começo da Guerra Fria não era vista com bons olhos pelo povo líbio.

Na verdade, houve manifestações para denunciar a proximidade do rei com o Ocidente após a derrota de países árabes para Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967 – da qual a Líbia não participou.

Essas manifestações abriram caminho para o golpe de 1969. Hoje, com uma nova geração, o país parece ter voltado a um ponto semelhante, com uma população jovem pedindo a prosperidade que o errático regime de Khadafi não conseguiu lhes dar.

 

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