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De Hiroshima a Fukushima: repensando a energia atômica

Por Jonathan Schell*

Tão otimista e lúcido quanto se pode ser diante dos fatos que abalaram o Japão nos últimos dias, o professor de Yale, Jonathan Schell, especialista em implicações da energia atômica, ilumina a questão do acidente nuclear que sucedeu os tremores de terra e o tsunami no país e faz ver que as questões estão separadas: de um lado, a força indomável da Natureza, de outro, a pretensão humana.

 

Ele propõe, então, uma revisão do uso da energia atômica segundo um critério curioso e pertinente. Leia abaixo um trecho do artigo publicado na revista Yes.


(…) O primeiro abalo, provocado pelas forças naturais, foi obra da Mãe Natureza, que nos lembrou, dessa forma, do seu poder soberano de nutrir ou punir nosso delicado planeta, com seu eixo que agora pende tão ligeiramente para uma nova direção. Não há nenhum culpado para quem se apontar o dedo. O acidente nuclear, por sua vez, é produzido pelo Homem e envolve responsabilidade humana.

Até nossa espécie entrar em cena, não havia na Terra liberações consideráveis de energia atômica por fusão ou fissão nuclear. Precisou-se da mão humana para que isso fosse introduzido nos assuntos terrestres. A sequência de acontecimentos nos reatores, que agora sai do controle, oferece um exemplo do desencontro que permeia a natureza do homem e a força que nem imaginamos ser capazes de controlar.

Energia nuclear é uma tecnologia alta e complexa. Mas nela, as coisas que falham endemicamente são simplórias. A arte da energia nuclear está em ferver água com o calor incrível gerado pela reação nuclear em cadeia. Mas essas temperaturas necessitam resfriamento contínuo. Resfriamento requer bombas. Bombas requerem eletricidade convencional. Essas são as fases do processo que geralmente dão errado – e deram errado no Japão. Um gerador de suporte desliga, uma bateria acaba, uma bomba fica sobrecarregada. Qualquer um poderia supor que não é difícil bombear água para dentro de um grande reservatório, o que geralmente é verdade. Mas até os planos mais bem pensados desandam de vez em quando.

Algumas vezes, a questão é o Tsunami, outras, é um operador que pega no sono durante o plantão. Esses acontecimentos, previsíveis ou não, afetam todos os estágios da operação. No Japão, por exemplo, a indústria de energia nuclear tem um histórico de esconder a poeira debaixo do tapete, ao driblar regulamentações de segurança e abafar violações de protocolo, entre outros problemas.  Mas que organização burocrática não o faz? E se esse comportamento existe no Japão, que tão organizado e eficiente quanto um país nesta Terra pode ser, em que nação ele não existiria?

Acontece que quando a burocracia é a administração do tráfego ou o departamento sanitário, equívocos comuns resultam em contratempos comuns. Mas quando o que está em jogo é a energia fundamental do universo, esses equívocos flertam com a catástrofe.

A questão não é a necessidade de mais um gerador reserva, ou a falta de mais rigor nas normas de segurança, nem que o ponto de despejo do lixo nuclear esteja em uma localização geológica pouco adequada, nem mesmo que o controle da proliferação seja frouxo. A questão é que criaturas errantes e imperfeitas que somos, não são as mais adequadas para manejar o fogo estelar emitido pelo átomo dividido ou fundido. Quando a Natureza demonstra sua força, porque é que o Homem precisa contra-atacar? O planeta já tem forças de destruição suficientes sem a nossa colaboração. Devemos deixar esse trabalho para a Mãe Natureza.

Houve quem sugerisse que, à luz desses últimos acontecimentos, devêssemos abandonar a energia nuclear. Tenho uma proposta diferente, talvez mais alinhada com o tipo peculiar de perigo com que estamos lidando. Vamos parar e estudar o assunto. Por quanto tempo? Bem. Plutônio, um componente do lixo nuclear, tem uma meia-vida de 24 mil anos, o que significa que metade dele é transformada em outros elementos durante sua decomposição radioativa. Isso sugere uma escala de tempo. Não seríamos precipitados se estudássemos por somente metade dessa meia-vida, 12 mil anos. Nesse ínterim, podemos, entre outras tarefas importantes, buscar por novas formas seguras de se obter energia. Quem sabe então estaremos espertos o bastante para usar direito o átomo repartido.

Tradução: Anna Carol Mello

*Publicado originalmente revista Yes, retirado do site As Boas Novas – http://www.asboasnovas.com/#/reporter/de_hiroshima_a_fukushima_repensando_a_energia_atomica/
(Envolverde/As Boas Novas )

© Copyleft – É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

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