ENFOCANDO NA INFO QUANDO ACONTECE

“Os ocidentais temem o vespeiro sírio”

Em Daraa, epicentro da contestação contra o regime de Bachar al-Assad, o exército reforça a repressão

Em Daraa, epicentro da contestação contra o regime de Bachar al-Assad, o exército reforça a repressão (AFP/youtube)
Por Samuel Jaberg, swissinfo.ch

Para tentar eliminar a contestação que sacode a Síria, Bachar El-Assad optou pela repressão. Sob o olhar embaraçado das potências ocidentais, que temem a desestabilização da região.

É o que afirma, na entrevista a seguir, Lorenzo Suarez, ex-funcionário do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, na Síria.

O movimento de protesto sem precedente – que começou há seis semanas – e a repressão cada vez mais violenta, já teria causado mais de 400 mortos até agora, segundo organizações de defesa dos direitos humanos.

Relativamente rápida a sancionar a repressão do movimento popular na Líbia, a comunidade internacional faz vista grossa frente ao regime sírio. Ela apenas começa a discutir eventuais sanções. É que as grandes potências temem enfraquecer o regime de Bachar-el-Assad e desestabilizar toda a região.

Este é o ponto de vista do suíço Lorenzo Suarez Lorenzo Suarez, que voltou em 20 de março de uma missão de três anos e meio a serviço do Alto Comissariado da Onu para os Refugiados (HCR), na Síria. Durante sua estadia, ele trabalhou num projeto de reinstalação, proteção jurídica e repatriamento de refugiados iraquianos.

swissinfo.ch: Nos mais de três anos que o senhor passou na Síria, dava para sentir as premissas da contestação do regime no poder?

Lorenzo Suarez: Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Mesmo durante as primeiras revoltas na Tunísia e no Egito, ninguém à minha volta pensava que contestação pudesse um dia chegar a Damasco. Na população, inclusive entre os jovens, Bachar El-Assad era bem visto. Os sírios falavam dele assim: Bachar el-Assad é um reformista cheio de repleto de boas intenções, mas cercado por uma velha guarda de militares e membros da espionagem herdados de seu pai, fonte de todos os males. Hoje, um número cada vez maior de sírios pedem mudanças na cabeça do regime e não apenas no entorno do presidente. É um elemento novo.

Lorenzo Suarez, ex-funcionário do HCR Lorenzo Suarez, ex-funcionário do HCR (SP)

swissinfo.ch: Como explicar então que o movimento de protesto tomou uma tal proporção?

L.S.: No início, falou-se muito da importância das redes sociais como Facebook ou Twitter. Mas os contestatários na internet representam um número limitado de pessoas. A revolta cresceu em resposta aos assassinatos cometidos pelo regime. Vemos uma espiral repressão-manifestações que se alimenta mais da violência do regime frente à contestação do que de argumentos racionais de oposição. Numa região onde as identidades religiosas ainda são muito marcadas e as emoções podem rapidamente dominar, o regime brincou com fogo.

swissinfo.ch: Como Benghazi na Líbia, Deraa foi o epicentro da revolta contra o regime de Bachar El-Assad?

L.S.:Essa cidade é, sem dúvida, o centro do movimento de contestação, mas outros lugares emergiram no país. Deraa foi durante muito tempo uma região esquecida e como dificuldades econômicas. O desemprego é certamente um dos motores do protesto, mas não o único. Os manifestantes parecem vir de diferentes regiões, classes sociais e correntes políticas.

As reivindicações também são muito amplas. Uns pedem a libertação de um parente detido, outros exigem mais liberdade econômica ou política, outros se opõem ao próprio sistema. Como ocorreu na Tunísia, no Egito e alhures no mundo árabe, o movimento de revolta sírio não tem base ideológica clara nem organização autônoma.

Na rua, está antes o homem da revolta do que o homem da revolução. Ele recusa claramente a ordem estabelecida, mas não tem vontade nem meios de propor uma alternativa de poder.

” As grandes potências influentes na Síria e nos países vizinhos parecer não querer correr o risco de uma intervenção que poderia provocar uma nova guerra civil no centro de uma região que já é muito instável. ” 
Lorenzo Suarez, ex-funcionário do HCR na Síria.

swissinfo.ch: A capacidade repressiva do regime sírio foi subestimada?

L.S.: A repressão atual é totalmente inaceitável, mas trata-se de manter o senso da proporção. O Estado não está cometendo ataques sistemáticos e generalizados contra milhares de civis. Ele comete assassinatos e detenções seletivas, na expectativa de intimidar e sufocar o movimento.

No ocidente, ninguém nunca teve ilusões acerca do regime de Bachar el-Assad. Ele não mudou desde a época de seu pai Hafez El-Assad, mesmo se uma tendência mais moderada se instalou com o tempo. A maior surpresa não vem do comportamento do regime, mas da emergência e do crescimento rápido da contestação.

swissinfo.ch: O senhor acha que os protestos podem provocar enfrentamentos entre comunidades?

L.S.: 
Sim e estou muito preocupado. A Síria é um mosaico de comunidades e de religiões, como o Iraque vizinho. A experiência histórica da sub-região pode provocar uma nova explosão. Mesmo se turistas e certos analistas ocidentais falam da Síria contemporânea como um Estado estável e seguro com uma grande harmonia comunitária, as relações entre as diferentes comunidades são mais tensas do que se pensa.

Os alawitas (muçulmanos sunitas) no poder são frequentemente acusados, com razão, de terem se apropriado da economia privada. O risco de radicalização, alimentado de ressentimento e de desconfiança, é uma realidade.

swissinfo.ch: O regimede Bachar el-Assad pode cair?

L.S. : 
Tudo é possível como ficou demonstrado na Tunísia, no Egito e pelo que está ocorrendo na Líbia. Mas acho que esse cenário ainda é distante. Os manifestantes são relativamente poucos e os organismos vitais do aparelho estatal não estão em perigo. Em segundo lugar, o movimento de protesto não tem um projeto político que poderia congregar a maioria da população. Enfim, não podemos subestimar os parâmetros geopolíticos regionais. As grandes potências influentes na Síria e nos países vizinhos não parecem dispostas a provocar uma nova guerra civil no centro de uma região que já é muito instável.

A menos de uma escalada da violência a longo prazo, as chancelarias ocidentais farão apenas intervenções retóricas. Isso demonstra mais uma vez como a indignação da comunidade internacional é seletiva, pois a decisão de intervir por motivos ditos “humanitários” é determinada por oportunismo político e não em nome de uma integridade moral ocidental qualquer.

Samuel Jaberg, swissinfo.ch
Adaptação: Claudinê Gonçalves

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: