ENFOCANDO NA INFO QUANDO ACONTECE

A importunidade das mudanças 


Um gesto de repelir com rancor a importunidade das coisas; por vezes uma imobilidade determinada, de protesto, no fundo dum divã, donde se não desenterrava, como para um repouso que desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que sublinhava cada passo; e sobretudo aquele murmurar que se torna perene e natural – “Para quê?” – “Não vale a pena.” Trecho de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.

A inércia, maravilhosamente descrita por Eça de Queirós, pode ser vista em vários lugares do Brasil. Em locais públicos e privados. Em graus variados. Em algumas regiões, já tem raízes, tentáculos. Séculos de paternalismo podem ter solidificado esse jeito indolente de olhar o seu entorno, de achar culpados, de transferir responsabilidades, de ficar em uma zona de conforto perene. Uma infinita falta de vontade de fazer quase qualquer coisa, como veremos adiante.

O sofá de inércia é bem pior que o banco da praça de inércia, que é mais incômodo. Comum em diversos lugares do Brasil, a inércia também está muito presente na forma de cadeira e até mesmo de banquinho, desses de repartição. É claro que arrancar o cidadão do sofá de inércia ou do banco da praça é sempre difícil, quase impossível. Na praça, esse cidadão preguiçoso aproveita o movimento de pessoas, e discursa para colegas de assento contra a falta de iniciativa de todo mundo, mas sem arredar da letargia. Se convidado a agir, ele desvia o assunto. Diz que é mais de palavras e gruda-se com afinco ao banco.

Existem cidades e até instituições onde em muitas, talvez na maioria dos ambientes e departamentos, só existam sofás de inércia. Eles dominam amplamente o lugar, onde é improvável prosperar quaisquer iniciativas de empreendedorismo ou de ações em favor da coletividade, que não seja a própria comunidade dos sofás. Se a medida for para assegurar ou até aumentar o sofá de inércia, talvez ocorram movimentos, quase secretos, e aí, paradoxalmente, muito rápidos mas distantes da transparência.

Talvez a lei mais famosa da inércia seja a que diz que ela é diretamente proporcional ao seu conforto. Quanto mais confortável e à vontade esteja a inércia, maior será o seu grau de intensidade de segurança e aderência.

A resistência da inércia a mudanças é praticamente imbatível. Exige esforço gigantesco das comunidades que lutam contra a apatia e conformidade. Que nunca podem desistir.

Fonte: Inácio Knapp.

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